"A Era de Ouro”

 

A Dança e a (re)Criação do Universo Pela Metáfora Espacial

*Angelita Corrêa Scárdua

 

Provavelmente a Dança foi a primeira forma de expressão artística desenvolvida pelos humanos, nossa primeira tentativa estética de recriar e compreender o fluxo da vida. Talvez por esse mesmo motivo a Dança seja uma forma de Arte que historicamente se liga ao Sagrado, em especial nas culturas primitivas, núcleo e semente do pensamento Pagão. Dentre as várias formas de Dança, as Danças Circulares são especialmente reveladoras dos aspectos míticos que dão vida a essa expressão artística.

 O caráter mítico das Danças Circulares revelam-se quando nos propomos

a percorrer os caminhos psicológicos e culturais que as constituem, porque estes implicam num uso ancestral do espaço geográfico, e da nossa percepção arquetípica deste.

"A Dança Sagrada”

 

Provavelmente as primeiras danças nasceram da "imitação" dos movimentos dos animais, vegetais e elementos, ou seja, do mundo que circundava nossos ancestrais e que constituíam o cenário de suas vidas. Como todas essas coisas eram tidas como Sagradas, sendo pertencentes a mesma fonte geradora - ao mesmo útero (a Terra) de onde todos vínhamos e para onde todos retornaríamos - dançar era mais do que entretenimento, dançar era ritual de iniciação, no sentido de que colocava o humano em contato com o divino, com o fluxo da vida no universo. Sendo assim a Dança em seu caráter original constitui-se numa maneira de tentar explicar a nossa própria existência em suas diferentes dimensões. E assim a experiência de dançar teria contribuído para que nossos antepassados conferissem às situações vividas valores distintos, em função basicamente das sensações e sentimentos desencadeados por cada um dos eventos que eram experienciados. Um dos recursos simbólicos que utilizamos para assimilar uma experiência e dar-lhe significado é a "Metáfora Espacial".

 

A "Metáfora Espacial" implica na distribuição dos eventos no espaço geográfico de forma que sua função esteja associada a um determinado local/região do nosso campo de percepção/ação. Por exemplo, a Mandala em sua forma circular confere uma ênfase especial ao centro que representa o ponto de origem. O centro, ponto de origem, encerra a
idéia de união, assim como de equilíbrio, já que todo o movimento circular gira em torno desse ponto central que se torna tanto o distribuidor quanto o catalisador do movimento. Encontraremos essa metáfora espacial da Mandala/Círculo em lugares tão diversos quanto no esquema cabalístico da criação, nos símbolos de Masculino e Feminino,
ou nas Danças Circulares Sagradas!

“Os Dervishes Rodopiantes”

Além das Danças Circulares, também encontraremos exemplos maravilhosos da presença arquetípica da Mandala, como interpretação do movimento de geração do universo, em outras formas do dançar como a Dança do Ventre, a Dança Indiana, a Dança dos Orixás e a Dança Balinesa, dentre muitas outras. Em todas essas modalidades da Dança encontraremos movimentos que remetem as formas cíclicas da vida cotidiana, “oitos” e “hastas” são apenas algumas das maneiras pelas quais o círculo emerge nos movimentos de uma Dançarina(o). O oito é particularmente interessante quando analisamos o caráter mítico da Dança, pois simbolicamente este número está associado ao infinito, isso porque ele não tem começo ou fim mas configura-se numa forma contínua e ininterrupta. Esse significado simbólico do oito o liga ao Arquétipo do Self, que expressa a totalidade, o universo, a plenitude, a comunhão da consciência com o inconsciente, o encontro do humano com o divino.

“O Progresso da Primavera”

Num tempo em que a vida era percebida como fluxo, e não como caminho, ou seja em tempos ancestrais quando nossos antepassados entendiam a vida como sendo um processo contínuo de nascimento-morte-renascimento, cuja origem circunscrevia-se à Terra e tudo ligava-se à mesma fonte, a vida era simbolizada espacialmente pelo círculo. Sabemos que no passado remoto, pré-civilização, a Serpente era um poderoso símbolo divino, e muito disso se deve ao seu caráter único de trocar de pele, "morrer e renascer", o que sempre era representado pela serpente engolindo o próprio rabo, um círculo!

Com o entendimento de um mundo exterior à Terra, um mundo "celestial", que em parte se deu com a “descoberta” do estudo dos Astros pela humanidade, a terra passou a ser vista como parte de um universo maior. Para essa vida “maior” o símbolo mais adequado deveria ser aquele que revelasse a união dos dois mundos, dois círculos que interagem, se unem e se perpetuam num único movimento, o 8! A Serpente aqui, ainda continua sendo vista como Sagrada, mas agora se ligará fundamentalmente às divindades da Terra, às figuras tectônicas dos mundos subterrâneos, ao passo que os pássaros, Astros e fenômenos celestes passarão com maior ênfase a representar as divindades dos mundos “superiores”. Na Mitologia podemos ver isso em Hórus, Odim, Zeus ( simbolizados pelo falcão, Corvo e Águia), Rá, Apolo e Thor (simbolizados pelo Disco Solar, Sol e Raio), em contraponto às Divindades mais primitivas como Uazidt e Ereskigal (simbolizadas pela cobra e sanguessugas)! Mas, é válido ressaltar que a Lua, primitivamente associada ao círculo e a serpente persistirá como símbolo de divindades femininas, e em muitos casos daquelas que habitam os mundos "inferiores".

A BACANTE

Dessa forma podemos ver que a "Metáfora Espacial" revela a força que as dimensões espaciais possuem em nossa interpretação do mundo, assim como pode nos ajudar a entender suas conotações arquetípicas. Os conceitos de movimento e parado que estão associados respectivamente ao círculo e ao quadrado nos fala disso.

Em diferentes línguas usa-se expressões similares às portuguesas "de vento em popa", "atoleiro", "pessoa quadrada", "circulando", etc. Na Mitologia, nos Contos de fadas, nas Religiões, assim como nas expressões do dia-a-dia, encontraremos imagens que reportam ao espaço geográfico demarcado pelo círculo como sendo símbolo de vida, que é o caso das fontes, dos lagos, da lua cheia, da rosa, etc. Mesmo em situações ambíguas como a Da Roca de fiar do conto da Bela Adormecida, o adormecer da jovem assinala seu ingresso no mundo feminino adulto marcado por sua capacidade de despertar o amor, casar-se e potencialmente gerar uma nova vida! Da mesma forma, castelos, celas, grades, tabuleiros de xadrez, etc., são figuras simbólicas clássicas de impasse, desafio, estagnação, etc., numa clara demonstração de que nossa representação do espaço geográfico e seus símbolos gráficos (o círculo, a reta, o quadrado) estão profundamente "contaminadas" das experiências arquetípicas que constituem nosso inconsciente coletivo.

“A Dança de Guerra dos Espartanos”

Todas essas experiências que (re)constroem, pela metáfora espacial, nosso lugar no universo são encontradas na Dança, uma forma de Arte profundamente vinculada ao Imaginário Pagão, seja por seu caráter mítico e ancestral ou por sua generosidade sensorial! Ao dançar exercitamos todos os nossos sentidos de uma só vez, usando nosso referencial sensório para situar nosso corpo no espaço-tempo.

 

“Uma Celebração a Baco”

Delimitando e expandindo nossas fronteiras do existir com o nosso próprio movimento, ocupamos e recriamos nosso espaço no mundo, e nos sincronizamos com a inevitabilidade do tempo, não tentando vencê-lo a todo custo mas deixando-nos guiar pelo compasso da música, esse veículo de transe que nos leva a compartilhar

com os deuses a (re)criação da vida.

ANGELITA  CORRÊA

 

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*Angelita Corrêa Scárdua é Psicóloga, Mestre em Psicologia Social pela USP de São Paulo e Professora Universitária. Textos seus sobre assuntos diversos podem ser lidos nos seguintes endereços da WEB:

http://www.escelsanet.com.br/sitesaude/artigos_cadastrados/artigo.asp?art=1030

http://www.mitoemagia.com.br/colunas/angel1.html

http://www.gargantadaserpente.com/coral/

http://www.madhava.jor.br/9art_maio2002.html

http://revista.bruxa.com/revista3/mapa.htm

http://www.projeto-hecate.com.br

 

IMAGENS

 

(Sagrado13) Abbey A. Alston “A Era de Ouro”

(Sagrado4) Jean Delville “A Dança Sagrada”

(Sagrado16) Jean Leon Gerome “Os Dervishes Rodopiantes”

 

(Sagrado14) Charles Daniel Ward “O Progresso da Primavera”

 

(Sagrado8) Arthur Wardie “A Bacante”

(Sagrado1) Sir Lawrence Alma-Tadema “A Dança de Guerra dos Espartanos”

 

(Sagrado10) Sir Lawrence Alma-Tadema “Uma Celebração a Baco”

 

 

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