(belly14) Hans Zatzka “A Dançarina do Harém”

A Dança do Ventre Como Veículo

 de (re)Unificação do Feminino

*Angelita Corrêa Scárdua

Isadora Duncan nasceu e cresceu junto ao mar. No auge de sua carreira,

 durante uma conferência em Berlim, disse que muito provavelmente

sua primeira experiência com a dança fora o movimento das ondas que ela observara e tentara imitar quando criança. É bem provável que a experiência dessa grande bailarina não tenha sido exclusiva, mas a verbalização consciente do que teria delineado toda a história da dança como uma expressão humana dos eventos significativos da existência.

(belly3) Jean-Léon Gérôme “A Almeh (com Flauta)”

Pensando nisso, seria válido reportarmo-nos a um evento profundamente significativo para a vida humana, o nascimento. A capacidade de gerar do corpo feminino marcada pela regularidade cíclica do sangue menstrual, das secreções vaginais e dos espasmos musculares derivados do prazer sexual, podem ter sua culminância no conceber, e posteriormente, parir.

O parir é uma atividade caracterizada por movimentos peristálticos, ondulações do ventre e respiração arfante, esse conjunto de atributos próprios do processo de nascimento pode ter representado para nossos ancestrais uma reprodução de toda a criação, de todo o movimento gerador e nutridor da Terra que possibilitava a existência humana e de todos os outros seres, cuja convergência máxima poderia ser a produção de alimento pelo seio feminino.

Diferentemente da pequena Isadora, para nossos ancestrais, sintonizar-se com a natureza e seus movimentos era uma questão de vida ou morte, representada pela fragilidade do humano ante as forças naturais e seus fenômenos que se repetiam ordenadamente e independente da vontade humana. Essa experiência da força criadora e destrutiva da Terra conferia-lhe, e aos outros seres que nela habitavam, um caráter sagrado.

Sendo assim, sintonizar-se com a natureza poderia ser entendido como compreender os seus movimentos e compartilhar de seu ritmo,

ou seja, reconhecer-se como também sagrado!

 

Assim como a pequena Isadora, descobriu que o mar era movimento, e que ela poderia reproduzir esses movimentos com o próprio corpo, maximizando a experiência de estar junto às ondas e perpetuando-a para sempre, podemos imaginar que nossos ancestrais possam ter pensado o mesmo em relação a experiência do nascimento, recriando-o e potencializando-o a fim de perpetuá-lo, o que viria por reafirmar seu caráter sagrado, conferindo-lhe um significado ritualístico que pudesse garantir a recorrência de nascimentos satisfatórios. O resultado disso poderia ser a dança do ventre!

Há sérios indícios históricos de que a dança do ventre, em sua origem, era realizada pelas mulheres em torno de uma parturiente com o objetivo de facilitar o trabalho de parto. Reproduzindo os movimentos característicos do corpo durante o parto, a dança do ventre amplificava o significado do nascimento humano ao ligá-lo aos movimentos que se acreditava serem os de geração da própria Terra e de criação em todo o Universo.

(belly15) Autor Desconhecido “Gravidez e Dança”

Sendo assim, a dança do ventre atuava como um ritual de conexão com as energias geradoras e criadoras universais que se manifestavam através

 do corpo feminino na hora do parto.

Como existia a crença de que toda a vida provinha da mesma fonte geradora, a Terra, a dança do ventre acabou por incorporar movimentos inspirados nos animais, nos elementos e em toda a natureza de maneira geral.

 

Alguns historiadores e antropólogos acreditam que a dança do ventre data de 7000 a.C., sendo praticada por antigas civilizações na Suméria, Acádia, Babilônia e Egito. Ainda existem vertentes que postulam que a dança do ventre é ainda mais antiga, e sua origem teria ocorrido em diferentes lugares da Terra. Há registros de que na Índia, entre 15 e 20 mil anos atrás, existiam danças criadas e realizadas por mulheres, que se baseavam nos movimentos da natureza, e que tinham por objetivo transmitir a experiência vivida, e conferiam-lhe um caráter sagrado.

A disseminação da dança do ventre no Oriente Médio está profundamente relacionada a invasão do Egito pelos povos árabes islâmicos no século 7, que desencadeou uma miscigenação cultural, que se por um lado permitiu a popularização da dança, por outro destitui-lhe o caráter sagrado. Posteriormente, a expansão do Império Otomano promoveu o estabelecimento da dança do ventre na Turquia, e com as invasões árabes no sul da Europa, atravessou o oceano estabelecendo-se em lugares como a Grécia, e influenciou definitivamente as danças populares da Espanha Mediterrânea.

(belly5) Jean Leon Gerome “A Dança da Almeh”

Contudo, não seria totalmente correto pensarmos que as danças sagradas praticadas por mulheres na Antigüidade com o objetivo de celebrar a vida sejam a mesma dança do ventre que conhecemos hoje. A dança do ventre de hoje é fruto de diversas influências culturais, que vão do domínio árabe no Oriente Médio até o estilo cênico típico dos cabarets franceses em fins de século 19 e na primeira metade do século 20. Esse estilo da dança, também conhecido como "Dança do Ventre Tradicional", desenvolveu-se no Egito, mas sua porta de entrada para o mundo ocidental foi a França, onde ela aportou como uma forma de arte e entretenimento exótico/erótico. Apesar disso, o caráter alegre de celebração da dança conseguiu prevalecer, em especial entre os povos do Oriente Médio, encontrando grande aceitação em países com expressivas colônias de imigrantes de ascendência árabe, como os Estados Unidos e o Brasil.

(belly10) Jean-Louis Gerome “Uma Almeh Dançando com Espada”

Mais recentemente, a partir da década de 60, movimentos sociais como o feminismo foram impulsionados pelas descobertas antropológicas e históricas impetradas na primeira metade do século. Essas descobertas traziam à tona a revelação de que povos ancestrais possuíam uma forte ligação com a natureza, não só de dependência dos recursos naturais, mas uma ligação imbuída de um vínculo espiritual que sacralizava a vida e toda expressão que lhe é característica. Temas como sexo e a relação com o próprio corpo puderam ser vistos de uma outra perspectiva, de forma tal que já não mais fazia sentido a crença judaico-cristã num corpo dissociado da experiência do sagrado. Talvez o fato mais marcante dessas descobertas seja exatamente a constatação da relevância do corpo feminino, para os povos da Antigüidade, e sua profunda conexão com o sagrado como veículo de geração da vida, o que levava a confirmação da existência de cultos ancestrais a divindades femininas, em especial a figura de uma Deusa Mãe, cuja existência se corporificava na Terra.

Esses acontecimentos na primeira metade do século 20 levaram ao renascimento e a redescoberta de diferentes formas de se relacionar com a natureza e o corpo, que serviram como combustível para mudanças socioculturais significativas, que englobam desde os movimentos ecológicos até o florescimento de uma tentativa de resgate do paganismo em suas mais variadas formas. Diante dessas novas perspectivas, cresce o interesse pelas práticas ancestrais, entre as quais as danças sagradas, o que tem levado a um desenvolvimento significativo da dança do ventre em todo o Ocidente,

marcado especialmente pela retomada de seus significados simbólicos religiosos

e de valorização do feminino.

(belly13) E. Raggi “Dançarina de um Harém Arabe”

Talvez o fato de a dança do ventre trazer em si referências tão antigas da história feminina sobre a Terra que remetem a uma vivência do corpo destituída de culpa e vergonha, permite que ela viabilize a emergência de conteúdos inconscientes que nos possibilitem resgatar aspectos esquecidos e/ou negados da nossa própria feminilidade, aspectos que nos permitem reconhecer a experiência corporal como sendo ao mesmo tempo prazerosa e divina, e talvez ainda mais do que isso…

(belly17) David Robert “As Ghawazees”

Ao possibilitar a reconstituição do vínculo entre o prazer e o sagrado, a dança do ventre nos ensina que não há separação entre o humano e a natureza.

Ao vivenciarmos a experiência do sagrado por meio da exuberância, sensualidade e materialidade do corpo físico, compreendemos que nosso corpo é o corpo da Terra e que nela tudo se funde no fluxo contínuo da existência.

No transe erótico/divino da dança do ventre nos tornamos capazes de (re)unir numa só mulher Deméter e Afrodite, Maria e Madalena, Eva e Lilith…

E nessa união celebrarmos as delícias de ser um espírito habitando um corpo que gera.

Angelita Corrêa

Copyright - Direitos Reservados

*Angelita Corrêa Scárdua é Psicóloga,

Mestre em Psicologia Social pela USP de São Paulo,

Professora Universitária...

e Amante da Dança do Ventre,

uma eterna aprendiz dessa Arte encantadora e profundamente feminina.

Textos seus sobre assuntos diversos podem ser lidos

 nos seguintes endereços da WEB:

http://www.escelsanet.com.br/sitesaude/artigos_cadastrados/artigo.asp?art=1030

http://www.mitoemagia.com.br/colunas/angel1.html

http://www.gargantadaserpente.com/coral/

http://www.madhava.jor.br/9art_maio2002.html

http://revista.bruxa.com/revista3/mapa.htm

http://www.projeto-hecate.com.br

 IMAGENS:

(belly3) Jean-Léon Gérôme “A Almeh (com Flauta)”

(belly14) Hans Zatzka “A Dançarina do Harém”

(belly15) Autor Desconhecido “Gravidez e Dança”

(belly5) Jean Leon Gerome “A Dança da Almeh”

(belly10) Jean-Louis Gerome “Uma Almeh Dançando com Espada”

(belly13) E. Raggi “Dançarina de um Harém Arabe”

(belly17) David Robert “As Ghawazees”

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