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A Dança do Ventre Como Veículo
de (re)Unificação do Feminino
*Angelita
Corrêa Scárdua
Isadora Duncan nasceu e cresceu junto ao
mar. No auge de sua carreira,
durante
uma conferência em Berlim, disse que
muito provavelmente
sua primeira experiência com a dança
fora o movimento das ondas que ela
observara e tentara imitar quando
criança. É bem provável que a
experiência dessa grande bailarina não
tenha sido exclusiva, mas a verbalização
consciente do que teria delineado toda a
história da dança como uma expressão
humana dos eventos significativos da
existência.

Pensando nisso, seria válido
reportarmo-nos a um evento profundamente
significativo para a vida humana, o
nascimento. A capacidade de gerar do
corpo feminino marcada pela regularidade
cíclica do sangue menstrual, das
secreções vaginais e dos espasmos
musculares derivados do prazer sexual,
podem ter sua culminância no conceber, e
posteriormente, parir.
O
parir é uma atividade caracterizada por
movimentos peristálticos, ondulações do
ventre e respiração arfante, esse
conjunto de atributos próprios do
processo de nascimento pode ter
representado para nossos ancestrais uma
reprodução de toda a criação, de todo o
movimento gerador e nutridor da Terra
que possibilitava a existência humana e
de todos os outros seres, cuja
convergência máxima poderia ser a
produção de alimento pelo seio feminino.
Diferentemente da pequena Isadora, para
nossos ancestrais, sintonizar-se com a
natureza e seus movimentos era uma
questão de vida ou morte, representada
pela fragilidade do humano ante as
forças naturais e seus fenômenos que se
repetiam ordenadamente e independente da
vontade humana. Essa experiência da
força criadora e destrutiva da Terra
conferia-lhe, e aos outros seres que
nela habitavam, um caráter sagrado.
Sendo assim, sintonizar-se com a
natureza poderia ser entendido como
compreender os seus movimentos e
compartilhar de seu ritmo,
ou seja, reconhecer-se como também
sagrado!
Assim
como a pequena Isadora, descobriu que o mar
era movimento, e que ela poderia
reproduzir esses movimentos com o
próprio corpo, maximizando a experiência
de estar junto às ondas e perpetuando-a
para sempre, podemos imaginar que nossos
ancestrais possam ter pensado o mesmo em
relação a experiência do nascimento,
recriando-o e potencializando-o a fim de
perpetuá-lo, o que viria por reafirmar
seu caráter sagrado, conferindo-lhe um
significado ritualístico que pudesse
garantir a recorrência de nascimentos
satisfatórios. O resultado disso poderia
ser a dança do ventre!
Há
sérios indícios históricos de que a
dança do ventre, em sua origem, era
realizada pelas mulheres em torno de uma
parturiente com o objetivo de facilitar
o trabalho de parto. Reproduzindo os
movimentos característicos do corpo
durante o parto, a dança do ventre
amplificava o significado do nascimento
humano ao ligá-lo aos movimentos que se
acreditava serem os de geração da
própria Terra e de criação em todo o
Universo.

Sendo
assim, a dança do ventre atuava como um
ritual de conexão com as energias
geradoras e criadoras universais que se
manifestavam através
do
corpo feminino na hora do parto.
Como
existia a crença de que toda a vida
provinha da mesma fonte geradora, a
Terra, a dança do ventre acabou por
incorporar movimentos inspirados nos
animais, nos elementos e em toda a
natureza de maneira geral.
Alguns historiadores e antropólogos
acreditam que a dança do ventre data de
7000 a.C., sendo praticada por antigas
civilizações na Suméria, Acádia,
Babilônia e Egito. Ainda existem
vertentes que postulam que a dança do
ventre é ainda mais antiga, e sua origem
teria ocorrido em diferentes lugares da
Terra. Há registros de que na Índia,
entre 15 e 20 mil anos atrás, existiam
danças criadas e realizadas por
mulheres, que se baseavam nos movimentos
da natureza, e que tinham por objetivo
transmitir a experiência vivida, e
conferiam-lhe um caráter sagrado.
A
disseminação da dança do ventre no
Oriente Médio está profundamente
relacionada a invasão do Egito pelos
povos árabes islâmicos no século 7, que
desencadeou uma miscigenação cultural,
que se por um lado permitiu a
popularização da dança, por outro
destitui-lhe o caráter sagrado.
Posteriormente, a expansão do Império
Otomano promoveu o estabelecimento da
dança do ventre na Turquia, e com as
invasões árabes no sul da Europa,
atravessou o oceano estabelecendo-se em
lugares como a Grécia, e influenciou
definitivamente as danças populares da
Espanha Mediterrânea.

Contudo, não seria totalmente correto
pensarmos que as danças sagradas
praticadas por mulheres na Antigüidade
com o objetivo de celebrar a vida sejam
a mesma dança do ventre que conhecemos
hoje. A dança do ventre de hoje é fruto
de diversas influências culturais, que
vão do domínio árabe no Oriente Médio
até o estilo cênico típico dos cabarets
franceses em fins de século 19 e na
primeira metade do século 20. Esse
estilo da dança, também conhecido como
"Dança do Ventre Tradicional",
desenvolveu-se no Egito, mas sua porta
de entrada para o mundo ocidental foi a
França, onde ela aportou como uma forma
de arte e entretenimento
exótico/erótico. Apesar disso, o caráter
alegre de celebração da dança conseguiu
prevalecer, em especial entre os povos
do Oriente Médio, encontrando grande
aceitação em países com expressivas
colônias de imigrantes de ascendência
árabe, como os Estados Unidos e o
Brasil.

Mais
recentemente, a partir da década de 60,
movimentos sociais como o feminismo
foram impulsionados pelas descobertas
antropológicas e históricas impetradas
na primeira metade do século. Essas
descobertas traziam à tona a revelação
de que povos ancestrais possuíam uma
forte ligação com a natureza, não só de
dependência dos recursos naturais, mas
uma ligação imbuída de um vínculo
espiritual que sacralizava a vida e toda
expressão que lhe é característica.
Temas como sexo e a relação com o
próprio corpo puderam ser vistos de uma
outra perspectiva, de forma tal que já
não mais fazia sentido a crença
judaico-cristã num corpo dissociado da
experiência do sagrado. Talvez o fato
mais marcante dessas descobertas seja
exatamente a constatação da relevância
do corpo feminino, para os povos da
Antigüidade, e sua profunda conexão com
o sagrado como veículo de geração da
vida, o que levava a confirmação da
existência de cultos ancestrais a
divindades femininas, em especial a
figura de uma Deusa Mãe, cuja existência
se corporificava na Terra.
Esses
acontecimentos na primeira metade do
século 20 levaram ao renascimento e a
redescoberta de diferentes formas de se
relacionar com a natureza e o corpo, que
serviram como combustível para mudanças
socioculturais significativas, que
englobam desde os movimentos ecológicos
até o florescimento de uma tentativa de
resgate do paganismo em suas mais
variadas formas. Diante dessas novas
perspectivas, cresce o interesse pelas
práticas ancestrais, entre as quais as
danças sagradas, o que tem levado a um
desenvolvimento significativo da dança
do ventre em todo o Ocidente,
marcado especialmente pela retomada de
seus significados simbólicos religiosos
e de
valorização do feminino.

Talvez o fato de a dança do ventre
trazer em si referências tão antigas da
história feminina sobre a Terra que
remetem a uma vivência do corpo
destituída de culpa e vergonha, permite
que ela viabilize a emergência de
conteúdos inconscientes que nos
possibilitem resgatar aspectos
esquecidos e/ou negados da nossa própria
feminilidade, aspectos que nos permitem
reconhecer a experiência corporal como
sendo ao mesmo tempo prazerosa e divina,
e talvez ainda mais do que isso…

Ao
possibilitar a reconstituição do vínculo
entre o prazer e o sagrado, a dança do
ventre nos ensina que não há separação
entre o humano e a natureza.
Ao
vivenciarmos a experiência do sagrado
por meio da exuberância, sensualidade e
materialidade do corpo físico,
compreendemos que nosso corpo é o corpo
da Terra e que nela tudo se funde no
fluxo contínuo da existência.
No transe
erótico/divino da dança do ventre nos
tornamos capazes de (re)unir numa só
mulher Deméter e Afrodite, Maria e
Madalena, Eva e Lilith…
E nessa união
celebrarmos as delícias de ser um
espírito habitando um corpo que gera.
Angelita Corrêa
Copyright - Direitos Reservados
*Angelita Corrêa Scárdua é Psicóloga,
Mestre em Psicologia Social pela USP
de São Paulo,
Professora Universitária...
e Amante da Dança do Ventre,
uma eterna aprendiz dessa Arte
encantadora e profundamente feminina.
Textos seus sobre assuntos diversos
podem ser lidos
nos seguintes endereços da WEB:
http://www.escelsanet.com.br/sitesaude/artigos_cadastrados/artigo.asp?art=1030
http://www.mitoemagia.com.br/colunas/angel1.html
http://www.gargantadaserpente.com/coral/
http://www.madhava.jor.br/9art_maio2002.html
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
http://revista.bruxa.com/revista3/mapa.htm
http://www.projeto-hecate.com.br
IMAGENS:
(belly3)
Jean-Léon Gérôme “A Almeh (com Flauta)”
(belly14) Hans Zatzka “A Dançarina do
Harém”
(belly15) Autor Desconhecido “Gravidez e
Dança”
(belly5) Jean Leon Gerome “A Dança da
Almeh”
(belly10)
Jean-Louis Gerome “Uma
Almeh Dançando com Espada”
(belly13) E. Raggi “Dançarina de um
Harém Arabe”
(belly17) David Robert “As Ghawazees”



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