(...quanto mais você estuda, mais sorte
você tem!)
por Jorge Sabongi
"Existe muito mais entre o céu e a terra do que pode imaginar
nossos olhos, ao vislumbrar uma apresentação de dança oriental; o
universo feminino é vasto; se você olhar de forma crítica, o que hoje
é absurdamente correto, poderá ser ridículo e ultrapassado, dentro de
cinco anos, quando estiver olhando para trás. Simplesmente dar aulas e
fazer shows não lhe garante evolução. Um mês sem estudar, não tenha
dúvidas, já começou a andar para trás..."
O que determina se você está vivendo um sonho ou uma realidade? É o
fato de achar, que um, é o outro. A capacidade de uma bailarina fazer
isso em minutos com seu público, vai de seu preparo, ao longo de anos,
principalmente sabendo que, por mais que tenha caminhado, nunca aprendeu
o suficiente; se você assistir a seu show dentro de cinco anos, vai se
achar medíocre, verá seus movimentos necessitando polimento, sentirá
a falta de uma cena mais delicada que deveria ser colocada aqui e ali,
aquela tradicional sutileza que sempre falta.
É porque a evolução na dança, depois de um certo tempo, acontece tão
lentamente, de forma quase que imperceptível, fazendo com que esqueçamos
como éramos a cinco anos atrás, ou mesmo, tirando sua noção se está
aprendendo ou estacionada. Fazendo uma analogia, é como construir uma
casa. Levantar as paredes e cobrir com o telhado é fácil e você vê o
resultado quase que imediatamente. Já quando entra na fase do
assentamento de azulejos e colocação de metais, é lenta e não enche
a vista como a visão de uma casa crescendo todos os dias.
O acabamento final é quase que imperceptível. Você tem que procurar
dentro da casa para ver, onde é que ele está acontecendo. Aqui o
resultado final só se percebe depois de concluída a obra. Depois
disso, vem a sintonia fina: móveis, o que combina com o quê, decoração
e as pequenas sutilezas que vão dar a cor e a característica de sua
personalidade. Assim funciona com seu aprendizado.
Acostume-se desde cedo a estudar e querer sempre saber mais. Não deixe
que seu aprendizado seja permeado pela superficialidade. Se assistir sua
dança de cinco anos atrás e achar que ela ainda está ótima, com
certeza, significa que você não evoluiu muito de lá para cá. Parou
no tempo. É preciso ter um senso crítico apurado e quebrar o espelho
narcisista para perceber isso. É simples... ao terminar a faculdade,
você olha para trás e vê a mesma pessoa de quando passou no
vestibular? Em dança oriental, a cada 5 anos, você faz uma faculdade.
Por cinco minutos, vi Souhair Zaki dançando em uma aula para quase uma
centena de alunas no Cairo. A emoção daquele momento, percebi em meus
olhos. Ao escrever estas linhas senti arrepios só de teclar, me
lembrando da emoção daqueles instantes. Voltou como se eu estivesse lá,
assistindo àquela cena... Era impressionante a questão da expressão,
tanto do corpo como de seu rosto, e, do que ela podia transmitir
naqueles instantes. Após 20 anos assistindo dezenas de apresentações
todos os dias, eu estava totalmente enlevado, tomado de emoção ou
hipnotizado, como queira você pensar.
Conseguir transmitir este sonho é uma arte que poucas dominam. Trata-se
de um trabalho que requer anos e anos de estudo; Mas só isso não é o
bastante. A dança envolve emoção e a teatralização artística; não
se aprende isso de um momento para o outro. Querer aprender não é o
suficiente. É necessário fazer germinar o movimento e a expressão. A
introspecção musical. Uma incorporação que envolve sentimento; um
doar-se ao público. Se não sentir a música, as pessoas, o ambiente,
dificilmente desenvolverá seu talento ao longo dos anos. Será sempre
aquela mesmice decorada, inexpressiva, sem encantamento.
O que quero dizer, é que não adianta você dizer que estuda a
"x" anos, dá aulas para "y" alunas, e nas horas
vagas, faz shows em lugares de destaque: o que está dentro de você e o
que angaria para sua expressão como bailarina é que pontua sua
qualificação. Seu processo evolutivo não pode parar. E isso vai
acontecer, sem sombra de dúvidas, se deixar sua fonte secar.
Como querer ensinar, sem aprender primeiro?
É necessário definir onde você quer chegar com seu aprendizado de dança
oriental:
1) um simples hobby ou terapia;
2) somente um aprendizado básico e superficial, sem compromisso e
comprometimento com qualidade, para se apresentar em qualquer lugar que
aparecer;
3) um complemento na sua forma de ser mulher;
4) tornar-se uma grande profissional
(digo "grande", porque aqui não existe meio-termo; ou opta
por ser "grande" ou não será uma profissional, ao longo dos
anos - vide item 2).
5) um ser sublime, digna de tornar-se uma lenda ao longo das décadas;
(neste caso, trata-se de uma "escolha de vida").
Definido isso, você começa a pensar quais os próximos passos a
seguir.
No caso de ser uma escolha para o profissionalismo, muitos fatores devem
ser observados. Lembre-se que isso envolve você "viver da dança".
Então como querer colher algo que você não planta? É insano querer
viver do resultado financeiro de shows e aulas, sem investir grande
parte dele. Você estará se auto-consumindo (o que ganha, gasta tudo,
ou paga contas). Se você vive essa situação, necessita mudar o
sentido e a atitude com relação à dança.
Se sua fonte é a dança, você precisa cuidar para que sua água esteja
sempre potável e haja fartura e abundância. Se entra em cena pensando
quanto vai ganhar ao final, escolheu o caminho errado. Quando você dispõe
sua arte, num lugar que não lhe oferece o mínimo de respeito, sem
iluminação apropriada para dança, com garçons circulando e servindo
bebidas durante o show, sem lugar para aguardar sua entrada ou se
trocar, literalmente jogada as traças...como enxergar seu
posicionamento em relação a esta dança?
Quando o cachê é seu único motivo, e nada mais importa, o que você
oferece deixa de ser arte. Que nome poderíamos dar a esta atividade? Não
sei como colocar de forma delicada essa comercialização além dos
limites.
Por vezes sinto que penso através das mulheres que conheço dentro da
dança, e aí, tomo por exemplo, aquela que tenho comigo há muitos
anos. Sei que a Lulu até pode se apresentar sem remuneração se a
causa for algo maior, mas tenho absoluta certeza de que ela respeita o
que faz suficientemente para exigir o mínimo, quando alguém lhe
contrata para mostrar seu trabalho. A dança devolve a cada bailarina
exatamente o que esta oferece a dança. Respeito se paga com respeito,
amor com amor, mediocridade, só casa com mediocridade. Pense
cuidadosamente a respeito de suas expectativas e peça aquilo que
realmente deseja, pois seja lá o que for, isto virá as suas mãos.
Quando digo para uma bailarina, que ela deve investir em si TODOS OS
DIAS, muitas nem sequer sabem ou imaginam a abrangência disso.
Existe um longo trabalho, se você fez a opção de tornar-se uma grande
bailarina. Desde seu preparo visual (roupas finas, adereços elegantes,
seu manto (abay) para quando não estiver em cena, maquiagem de boa
qualidade, ...), imagem (construção de seu personagem - postura,
gestos, elegância-, fotos - sempre melhorando e atenuando as falhas da
sessão anterior -, propaganda pessoal - delicada e sem exageros...),
ferramentas de trabalho (desde sua mala, objetos cênicos, CDs - de
todos os gêneros e o mais variado possível -, vídeos para estudos,
DVDs, livros e apostilas, impressões por Internet de pesquisas
realizadas, tudo catalogado para facilitar a busca quando necessário...),
conduta profissional (manter-se sempre cristalina; ser uma grande
observadora das demais condutas, filtrando o que não é compatível ou
não demonstra nível a altura de seu profissionalismo). Tudo isso,
nunca é o suficiente pois você estará sempre em mutação.
Conheço bailarinas que possuem uma década de dança ou mais, e que só
fizeram uma única seção de fotos profissionais até hoje. No máximo
duas. Como é possível isso, se seu rosto muda a cada 6 meses na dança?
Teoricamente, a cada ano, você precisa fazer novas fotos profissionais.
Se é caro? Não é este o caso. A questão é que "fotos
funcionam". Elas divulgam você. São um termômetro de sua evolução
visual.
Como pode uma boa bailarina, ter uma pasta com apenas 50 unidades de
CDs? Esta é sua ferramenta mais preciosa. Ao longo de anos, precisam
haver centenas. A possibilidade de opções e o domínio de uma miscelânea
musical a tornam consistente, confiante. Se mesmo assim, você diz, é
caro... me desculpe!
Você pode ter algumas predileções musicais, mas deve conhecer um
pouco de cada estilo. Negligenciar o estudo de alguns estilos por
"não gostar", é inaceitável do ponto de vista artístico.
Fará falta em algum momento de sua carreira, pode ter certeza. Dance de
tudo e varie sempre seu repertório; novidades sempre aparecem: esteja
pronta para adquirir quando elas surgirem a sua frente.
Ninguém aprende sozinho. Achar que isso vai acontecer com você é
infantil e uma viagem astral sem precedentes. Como alguém pode
ensinar-se a si mesma, sem ter parâmetros para delimitar seu
crescimento ou evolução? A resposta é que ninguém evolui só. Já
viu alguém crescer sozinho em uma ilha deserta? É imaturo dizer que
aprende só, da mesma forma que sua dança provavelmente será imatura,
pois ninguém poderá corrigir seus erros. Será sempre a mesma coisa,
anos e anos.
Não é suficiente dizer: "É, mas eu fiz os Workshops da Fulana,
Beltrana e Cicrana...". Isso por si só e isoladamente, não trás
os resultados que você procura. É preciso muito mais...
"Em quanto tempo vou me tornar uma boa bailarina?" Só você
poderá dizer isso. Seu senso crítico vai dar a resposta a cada
apresentação. E isso, pode ter certeza, se conseguir manter sua
humildade, vai acirrar muito em você.
Copiar, todas copiam. O problema é quando copiam mal. De forma
grosseira. Sem talento. Aquela atitude de colar um trabalho completo,
como se via na escola. Nem uma única palavra pessoal. Igual como
encontrou num livro escrito por alguém. Onde está seu toque pessoal?
Já parou para pensar quão extenso é seu repertório de movimentos?
Se ele for suficiente para preencher, no máximo, cinco minutos de uma música
moderna, um solo de percussão, e aquelas danças mais comuns, significa
que a estrada está só começando. Dançar de forma coreografada idem.
Experimente dançar em casa, uma música clássica elaborada e completa
de 10/12 minutos, e veja como pode criar o melhor de seus movimentos.
Agora tente outra música clássica, com mais ou menos o mesmo tempo, e
procure não repetir as mesmas sequências de movimentos.
Como ficou? Se você acordou do sonho e tomou um susto, é um bom sinal.
Existe muito o que caminhar e agora não é momento de pensar no que
foi, mas no que vem.
O maior erro incorrido por todas as bailarinas é serem superficiais no
aprendizado e acharem que mesmo assim, vão chegar a grandes estrelas
(dignas até de empinar o nariz!). O que adianta dizer que tem 10 anos
de dança, se em suas apresentações, o que se vê em seu personagem,
é aquela mesmice de sempre. Sem evoluções ou criatividade. Aquele
show sem aura. Uma coisa comercial, que não tem alma ou nunca teve.
Uma dança homogênea é aquela previsível, que nos primeiros 60
segundos, sabe-se o que vem até o final da apresentação. Fica apenas
naquilo. Não tem picos, momentos especiais, efeitos surpresa, expressão,
emoção, carisma. Finalização fraca, enfim... carente de correções.
Duro seria perceber que talvez tudo isso que você sempre pensou que
tivesse atingido, sequer não passou da superfície e sua dança é a
mesma das salas de aula 1,2,3,4 para cá, 1,2,3,4 para lá, básico egípcio
e básica como sempre. Se você foi além e sua dança atingiu uma
característica própria, o quanto ela evoluiu e passou por fases ao
longo dos anos? Ou permaneceu a mesma dos cinco primeiros?
Não que isso não ocorra dentro da Khan el Khalili. É que lá, cada
vez que acontece, procuramos na medida do possível, falar diretamente a
cada uma, mesmo que este tipo de crítica construtiva não seja bem
vinda por muitas. O tempo e a distância, mostram a cada uma, que isso
tem sentido ao longo dos anos.
Ninguém é autodidata em dança oriental... todas aprendem umas com as
outras, só que a humildade de cada uma, faz com que reconheça, com
orgulho, a maternidade de seus movimentos e também de conhecimentos. É
uma questão de maturidade profissional.
Quando se é menino, tem aquele negócio de "o meu é maior que o
seu". Quando se é bailarina isso é revivido em todas as fases:
"eu danço melhor que ela (minha dança é maior que a dela)".
Mas todas podem brilhar, cada uma à sua maneira. As características da
dança, para cada uma, são infinitas. É uma questão de assimilar o máximo
de facetas possível. De estar sempre evoluindo.
Quando me perguntam: "Quem, para você, é a melhor
bailarina?" Sempre respondo: "Existem muitas boas, cada uma
com seu brilho especial, sua forma e características ímpares; só que
poucas são melhor preparadas, em função do estudo que empreendem
diariamente! O resultado retorna na medida do seu investimento em si
mesma, e também... na medida de seu merecimento! (é aqui que entra a
questão da conduta profissional, do doar-se, do personagem cristalino,
sem duas faces)" Temos muitas grandes profissionais. Lendas na dança
no Brasil, posso dizer que, por enquanto, ainda preenchem somente alguns
dedos de uma única mão. E espaço para isso, tem!
Seu sucesso como bailarina, está em fazer as escolhas certas! Ao contrário
do que se pensa, o aprendizado não para. Nunca se está preparada. Quem
não estuda e não procura novas fontes, fica estagnada no tempo:
fossilizada. É um erro achar que o que você aprendeu nos últimos 10
anos de dança, valem para sempre. O que funcionava há 10 anos atrás,
hoje é apenas o superficial, a primeira camada, só a ponta de um
grande iceberg.
Não é a sorte que determina se você vai ser ou não uma grande
bailarina. É sua "atitude" de todos os dias!
O que você pretende para seu futuro profissional? Ser uma estrela ou um
engodo? Sua decisão de agora, será o resultado de seu amanhã.
Dependendo de sua escolha... ESTUDE MUITO, E SEMPRE!
Jorge Sabongi