Como avaliar sua dança
   

 

 
   Como avaliar sua dança  
 

 

por Jorge & Lulu Sabongi*


"Este artigo, tem por objetivo, oferecer informações úteis para nortear seu caminho durante o desenvolvimento e manutenção da sua qualidade na dança. Não se angustie se num primeiro momento ele lhe parecer árido demais. Com o tempo perceberá que as informações são simples e facilmente digeríveis.

Sugerimos que você o imprima para poder ler diversas vezes. Existe uma gama de informações preciosas nas linhas abaixo, difícil de assimilar em uma única leitura. Lulu e eu escrevemos juntos, mesclando as idéias e cada um colocando pontos de vista pessoais. Ele poderia se estender por páginas e páginas, mas preferimos passá-lo em um panorama rápido, para futuramente criar um alinhavo mais rebuscado. Você vai se assustar com os resultados dele a longo prazo em seus estudos. Mas a idéia é essa: oferecer-lhe diretrizes e embasamento.

O fato de termos assistido a tantas apresentações desde a abertura da casa, nos possibilita oferecer uma opinião, no mínimo experiente, a respeito das reações do público em geral e seu comportamento.

Esperamos ser de alguma ajuda para você, que está trilhando seu próprio caminho dentro desta arte. O resultado abaixo, envolve mais de duas décadas observando, estudando e aperfeiçoando, aquilo que chamamos, desde o início da Khan el Khalili de "A Arte da Dança do Ventre".

Portanto... prepare-se para uma jornada! Em observando os princípios abaixo, sua dança nunca mais será a mesma... pode acreditar!"

"Aceite o fato de que nem todos os dias você vai estar leve para dançar como gostaria."

O começo de tudo
O sonho de qualquer bailarina é manter uma platéia presa e atenta a seus movimentos do começo ao fim de uma apresentação. Se seu objetivo ao entrar em cena é apenas este, algo estará perdido. Agilidade e qualidade técnica são pontos extremamente importantes, mas não são os únicos a serem observados. A naturalidade ao dançar, aliada a um bom preparo artístico, são a garantia de seu carisma em cena. Caminhos para seu desenvolvimento existem muitos, cada mulher é um enigma. O estudo da dança e a intimidade consigo mesma, criam ao longo dos anos, um panorama intrincado e rico que vai transparecer em sua dança. 

Alguns pontos a serem observados:

Dinâmica
A dinâmica diz respeito a variedade de nuances e diversificação de momentos em sua apresentação. Através da correta utilização da música em seus diferentes caminhos, você pode favorecer a concentração do público. Sua interação com o som a transforma no exemplo visual daquilo que é apreciado por nossa audição. Se porventura optar por ignorar as modificações sonoras que lhe são oferecidas, sua apresentação se torna homogênea e linear, sendo portanto portadora de poucos atrativos para segurar a atenção da audiência. A previsibilidade de seus movimentos nunca será um fator de atração, mas ao contrário, de dispersão.

Muitas vezes podemos perceber uma grande diferença de estilos ligada a personalidade de cada bailarina. Uma pessoa com alta sensibilidade e dotada de gosto pelo sensorial, terá uma dança mais calma e delicada, e provavelmente seu objetivo ao dançar estará conectado com sua necessidade de expressar sentimentos mais profundos. Pessoas fortes e voluntariosas tendem a ter um estilo assertivo e gosto por músicas mais suntuosas ou marcantes, favorecendo a visão do poder durante as apresentações, demonstrando sua imposição e energia.

Logo, percebemos que "não é possível brincar com fogo sem se queimar!" Para atingir o equilíbrio devemos nos lembrar que, em primeiro lugar, antes de nosso estilo pessoal, o que determina os humores de nossa apresentação devem ser ditados pela música que nos guia e não por nosso gosto individual. Claro que cada uma de nós terá uma forma única de dizer o mesmo, mas sempre respeitando a intenção do compositor que criou a peça.

Dentro de uma música clássica por exemplo, as falhas de dinâmica soam absurdamente claras. Estas peças são criadas de forma diferenciada, com número maior de instrumentos e também mais riqueza de possibilidades para a executora-bailarina. Cabe a nós a preparação necessária para poder aproveitar tudo o que a música nos oferece. Normalmente uma peça clássica tem muitos momentos diferentes, alguns suntuosos, outros melancólicos, dramáticas finalizações. Cada um deles convida para uma interpretação única. Para estar tranqüila durante a leitura desta música, não podemos ter dúvidas básicas sobre técnica, ou ritmos. Um repertório rico em passos e variações é então solicitado, e nosso corpo responderá automaticamente aos estímulos que o som oferece.

A Dança é viva
A dança é uma arte viva, e portanto, ela muda como você, a cada ano. Ao adquirir novos conhecimentos ou passos tudo se altera, incluindo a forma como se trabalha a dinâmica. Sendo a dança uma forma de expressão sensível, ela é permeável as suas próprias flutuações de humor: se o coração não vai bem, se a tpm te visita, tudo pode influenciar em sua dança. Sabendo disso antecipadamente, vale a pena preparar-se. Queremos dizer, nos momentos em que a fragilidade se instala, você terá outros instrumentos para protegê-la, se esta é sua opção profissional. Se dançamos apenas pelo prazer, não há problema algum em ser introspecta quando não nos sentimos bem. Mas quando esta é sua vida real, não há como fugir da raia. Os grandes auxiliares nestas situações são: nosso conhecimento técnico e a experiência de palco. Munidas desta forma, podemos enfrentar um dia complicado apresentando a mesma qualidade de dança que ofereceríamos se tudo estivesse bem. Por dentro, você pode até saber que aquilo não foi o melhor, mas o público nunca perceberá.


O Deslocamento Espacial
Ter noção do espaço. Parece simples mas não é.
O que faz com que um gato passe numa fenda pequena de um portão? Primeiro de tudo são seus "bigodes" que determinam o tamanho da fenda que ele poderá passar. Cortando-os, você tira a noção espacial que ele tem de cálculo. Estes pequenos fios, garantem tamanha precisão, que o cálculo é feito em fração de segundos, enquanto ele está correndo. Então ele pula... e passa de forma astuta, com o corpo inteiro!

O deslocar-se requer mais do que técnica e elegância. Requer criatividade! De posse dessa noção espacial, você executa as evoluções, no momento certo e no lugar certo, por onde circula naquele instante. Permita que todo o público possa apreciar sua apresentação e não apenas uma parte dele. Esta é uma das grandes falhas encontradas nas apresentações. Nunca desmereça uma parte de sua audiência.

Seus olhos devem estar atentos a cada ponto da sala ou palco, de seu espaço coreográfico. Acostume-se a medir com os olhos e a sensibilidade do corpo o espaço a sua volta. Muitas vezes dançamos perto das pessoas e nossa sintonia fina deve ao menos pressentir até que ponto podemos nos aproximar, sem tornar inconveniente a pequena distância entre estes pontos. Como passear entre as mesas, quando numa festa os convidados estão dispostos desta forma. Como nos livrar de alguém que já bebeu um pouco e esqueceu que não é um rei ou um paxá. E ainda, o tempo certo de olhar, sem intimidar ou criar constrangimento.

O deslocamento bem trabalhado nos oferece liberdade de movimentação e elegância para fugir de situações embaraçosas sem dar o mínimo indício de desconforto a quem quer que seja, em especial às mulheres presentes.

Giros e Eixo de Equilíbrio
Os giros que se executa na dança estão diretamente ligados a seu "eixo de equilíbrio". Pessoas que não tem este eixo desenvolvido, perdem a noção enquanto estão girando e acabam saindo do ponto onde estão pisando, pendendo para os lados. Durante os giros, é necessário a elegância e simetria dos braços e pernas. Quanto mais impecáveis eles forem, maior a facilidade dos giros.

A noção de eixo central é sempre trabalhada em dança acadêmica. Não importa a área escolhida. ballet clássico, moderno, contemporâneo ou jazz. O giro sempre está presente em cada uma destas vertentes da dança. Se você tem uma professora ativa e habilidosa nos giros, pode solicitar a ajuda dela no desenvolvimento de sua própria habilidade neste sentido. Se este não é o seu caso, procure por uma escola de ballet conceituada e entre para a classe de iniciantes. Com certeza o desenvolvimento desta técnica lhe auxiliará no reconhecimento de seu centro de equilíbrio e favorecerá diversas facetas existentes na dança oriental. Dentro do trabalho com véus por exemplo, os giros são fundamentais. Para os deslocamentos são essenciais.

A Emoção
Paralelo a isso, corre a emoção. A expressão de seus sentimentos dentro da apresentação não ocorre apenas através de "caras e bocas", ou do famoso "sorriso automático" estampado no rosto durante a duração da música. Deixando de lado regras pré-concebidas e formatadas, o caminho da expressão dentro da dança passa "por dentro de você".

Se não há, por parte de você, "permissão para sentir", não haverá espaço em sua arte para expressar o que se sente.
Ao acontecer a entrega, estabelece-se uma ligação entre o público e aquela que dança.

O significado dessa interação é difícil de ser explicado, mas traz algo mágico. Por alguns instantes não existe divisão entre nós. Eu pessoalmente (Lulu), sinto muitas vezes que me torno una com o público, como se pudéssemos respirar juntos e não separados. Cada bailarina sentirá de uma forma diferente o impacto dessa comunicação sensível, mas temos certeza de que, a "marca emocional desta conversa musical" deixará lembranças em todas elas.

Por vezes, o caminho para esta entrega emocional vai ser propiciado pelo instrumento solista dentro de uma música: um violino triste e angustiado, o som de uma flauta suspirando e chamando por alguém, um choroso alaúde dedilhando interminavelmente acerca da tristeza do amor perdido. Estimule sua sensibilidade ouvindo música; tente absorver as impressões deixadas por ela em você. Que instrumento lhe inspira mais, qual lhe provoca tristeza, qual lhe convida para o silêncio?

Fuja da superficialidade, mergulhe dentro dos sons e imagine que seus movimentos devem ser a forma visual daquilo que ouve.

"Qual o encanto que exerce uma ópera?" Cenário, luz, figurino e uma orquestra primorosa. Os cantores líricos impecáveis e tudo preparado para oferecer uma viagem sonora e visual para o público. Uma estrutura enorme e perfeitamente orientada para falar direto ao nosso coração. Quando você menos espera, a ópera incorporou o sentimento em você. Guardadas as devidas proporções de grandiosidade e riqueza, tudo aquilo, preparado única e exclusivamente, para fazer vir a tona em você, alguns segundos de emoção. Apenas aqueles instantes fazem valer sua noite, ou seu final de semana. Serão lembrados para sempre e provavelmente não se apagarão para o resto da vida em sua memória. Lembro-me de um momento pessoal... Estava eu (Jorge), no Teatro Municipal de São Paulo, para assistir a uma ópera sobre uma saga grega: Xerxes. Isso aconteceu há mais de 15 anos e para mim parece que foi ontem. Se fecho os olhos, ouço novamente o tenor que representava Xerxes, sua voz preenchendo o teatro e meus olhos rasos d'água. Aquilo foi tomando uma proporção dentro de mim... que por um instante sentia que iria transbordar completamente em prantos... de felicidade! Compreende o sentido da emoção? Ela vai provocar você durante milhares de vezes na vida, esperando sua reação.

Quanto mais suscetível as emoções você ficar, mais aguçada será sua sensibilidade. Quanto mais emoção a bailarina tiver dentro de si, quando mais profunda sua entrega, o jogo eterno das emoções fará sua parte. E você não será mais uma bailarina, mas sim uma mensageira da arte e da sensibilidade. Alguém que oferece vida através de movimentos e beleza.

A Expressão Facial
"O rosto é o retrato da alma."

Como traduzir expressão facial. Não é algo que se ensine em sala de aula. Podemos dizer que a expressão do rosto é decorrente da emoção. O que você sente ao dançar, pode ser visualizado pelo público através de seu rosto. Seus olhos podem denunciar qualquer coisa que esteja passando por sua cabeça no momento da dança. Insegurança, medo, indecisão, tranqüilidade, força e afetividade. A incontável lista de possibilidades está guardada em sua face para dramatizar ou comunicar a quem te vê: sua forma de receber a música.

Prepare-se para desenvolver esta parte da dança devagar e sem pressão. Procure no som, as pistas para sua expressão. Que tipo de sentimentos brotam ao ouvir determinada canção, o que lhe diz sua intuição e sensibilidade? Um repertório musical sempre renovado e atual é o melhor estímulo para sua diversidade. Acostume-se a ouvir diversos estilos de música, aprecie as diferenças, descubra os pontos mais importantes de cada grupo musical e procure, através das similaridades e dos detalhes diferenciados, desenvolver uma leitura pessoal para cada um dos estilos.

Como seria ter que dançar uma mesma música por anos e anos? A renovação é necessária para as células e para o cérebro. Enjoou? Guarde o CD até sentir saudades da música. Não o use por falta de opção.

Portanto, mude suas músicas constantemente para renovar sua emoção.

Presença de Palco e sua Finalização
A noção de palco, só o tempo vai lhe conferir.

No começo de nossa experiência como bailarinas, geralmente o palco nos apavora, e, saber que há público sedento de apresentação, parece muito mais com um pesadelo do que com um sonho. Em primeiro lugar, tome seu espaço e acredite no direito de utilizá-lo. Seja qual for o lugar oferecido para que sua dança aconteça, as pessoas que lá estão aguardam exatamente por isto: uma bela apresentação de dança. De certa forma, elas estão preparadas para receber o que será oferecido e influenciadas positivamente para assistir ao espetáculo. Tudo o que você tem a fazer é relaxar e mostrar o que preparou para o momento. Lembre-se de olhar e se dedicar a todos os lados. Quando dizemos isso, é para informar que seus movimentos deverão ser direcionados de forma equilibrada para todos os lados que tenham olhos direcionados à você. Não se esqueça de um pedaço da sala ou do teatro, apenas porque parece menos cheio ou animado que o restante. Cada pessoa presente merece sua atenção de forma igualitária e sem predileções aparentes.

A finalização deve ser absolutamente precisa. Qualquer engano a este respeito, retira grande parte de sua força dramática.

Imagine sua apresentação como uma estória que tem começo, meio e fim. Você se interessaria por ler ou ouvir uma estória que não termina? Da mesma forma é a sua dança: o final coroa tudo o que aconteceu antes; ele é a chave que fecha de fato a porta que se abriu aos primeiros acordes de sua música. Sem nos esquecer da fidelidade que devemos a música, nosso corpo deve encerrar em forma de movimento as impressões sonoras que são recebidas. Lembre-se de terminar "junto" com a música, nunca antes e nem depois. Seu ouvido deve ser estimulado com os mais variados sons, e principalmente, com os acordes finais.

Tranquilidade e Segurança em cena
É perceptível numa dança, mesmo para o leigo, a insegurança da artista. Seja num olhar de soslaio ou de dúvida, um passo sem a medida certa e a percepção deste, a indecisão dentro de uma sequência. Para adquirir esta qualidade, uma de nossas metas passa pelo domínio técnico. De certa forma a tranquilidade estará sempre ligada a segurança. O conhecimento adquirido com estrutura, propicia a calma necessária para sua permanência despreocupada em cena.

Ter um estudo baseado no improviso, também ajuda e muito seu desenvolvimento. Trabalhando alerta e sem imprimir força desnecessária em seus passos, oferecendo variações que fluem naturalmente e obedecendo as nuances propostas na música, seu caminho nasce sem esforço e tudo acontece como parte do todo. Você e a música passam a ser uma coisa só. Não se esqueça do que foi mencionado acima acerca da dinâmica: dançar tranquilamente não significa, dançar de forma tediosa.

Hoje em dia no Egito e Líbano por exemplo as danças são praticamente todas coreografadas. Pessoalmente minha posição sempre foi um pouco reticente com relação a criação de sequências fixas para apresentações, mas existem alguns fatores que devem ser levados em consideração. Um deles, seria o caso específico de um show de uma hora ou mais, que se repete 6 vezes por semana. Neste caso, vale a pena preparar um programa fechado que garanta a qualidade de sua performance, mesmo quando você não vive um de seus melhores dias. Quando sua vida profissional é baseada em apresentações curtas, existe maior liberdade de ação e a opção pelo improviso dirigido parece muito mais estimulante do que a simples execução de coreografias prontas.

Para mim (Jorge), coreografias limitam a emoção. Você não pode dar o melhor de si, em uma música que já dançou exaustivamente dezenas de vezes em ensaios anteriores. Torna-se maçante e artificial para você. Pense no caso de Mick Jagger por exemplo, cantando "Satisfaction". Ele já faz isso exaustivamente desde o início dos anos 60. Você acha mesmo que ele canta esta canção com "satisfação"? Tem que cantar, pois pedem, mas internamente, para o artista, a emoção já se diluiu há muito tempo. O que existe é uma coreografia cênica, uma improvisação dirigida.

Improvisação Dirigida
Chamamos de improvisação dirigida o estudo detalhado de uma música, com diversas repetições práticas de dança ligadas a música escolhida. Depois de algum tempo estudando, você treina suas reações de acordo com cada flutuação que se apresente, e seu corpo reage adequadamente ao momentos diferenciando a apresentação em harmonia com os sons que se apresentam.

De certa forma, a intimidade com a música lhe oferece calma e tempo para definir o que usar e quando. Os momentos dramáticos e cruciais já estão marcados dentro de seus ouvidos e de posse deste conhecimento, poderá escolher, durante a execução entre diferentes opções de passos, previamente testados, aquele que lhe parece mais apropriado. O fato de ter tentado outras vezes dançar a mesma peça, enriquece seu repertório de variações, e assim, mesmo dançando a mesma coisa mais de uma vez, estará apta a oferecer uma versão fresca, de acordo com suas emoções naquele exato instante.

Aspectos importantes para um bom resultado em cena:
Feminilidade claramente assumida. Não se esqueça ao dançar, que o charme é fundamental na dança oriental. Não há mal algum em exercitar sua delicadeza e elegância ao estar em cena. Toda mulher possui dentro de si facetas, nascidas em fases diferentes de sua vida; em princípio essas variadas expressões deveriam ter espaço dentro de nossa dança para se manifestar livremente. Neste sentido, em algum momento visualizamos a mulher, em outros uma menina, diversas faces pertencentes a apenas uma pessoa. Quando assumimos nosso papel feminino de forma ampla e verdadeira, não corremos o risco de ofender a ninguém. A sensualidade presente na dança faz parte de sua natureza e não é agressiva nunca, se bem direcionada.


Cuidado esmerado com seu traje e produção visual. Não se iluda ao pensar que os pequenos defeitos em sua roupa não serão notados, e que aquela lantejoula faltando passará desapercebida. Como bailarina, você alimenta o público de diversas maneiras. Todos os sentidos são estimulados, os sons, as cores, o perfume que usa ao dançar, sua roupa, e sua aparência. Tudo faz parte do contexto. Cuide com esmero de seu visual. Não temos que ser magras como uma top model, mas atualmente, nem mesmo no Egito, que no passado tinha predileção por bailarinas generosas em suas curvas, além dos padrões ocidentais, mantém esta posição. Hoje em dia, há preferência por corpos mais delineados, ainda que longe dos padrões espartanos das modelos internacionais. Convém pensar a este respeito. Toda profissão tem suas exigências; a nossa não é diferente.

Conhecimento de folclore. Toda tradição traz consigo grandes riquezas e não é diferente com a dança oriental. O folclore dá um colorido especial a sua dança e funciona como elemento surpresa em suas apresentações. Dentro de um show longo por exemplo, a apresentação folclórica cria momentos especiais e leves, dando a chance de alargar a visão do público acerca desta arte.

O trabalho com os véus. Apesar de não fazer parte das tradições dentro dos países árabes (a utilização de véus na dança, de forma prolongada), é difícil deixar de lado este elemento tão mágico cenicamente. Como todas as outras possibilidades presentes na dança, o uso dos véus depende de treino e apuro técnico. Como utilizá-lo em suas entradas e saídas de cena, que força imprimir para obter o melhor resultado, qual a velocidade exata para criar o efeito que transformará a dança em sonho. Em nossa opinião pessoal, o véu também desempenha um papel fundamental entre a saída de uma bailarina e a entrada de outra. Levado pelos movimentos sinuosos e envolventes do véu, o público se distrai e apaga momentaneamente a imagem da bailarina anterior, limpando a memória para receber a próxima performance.

Agilidade e técnica de quadril para percussão e partes lentas. O quadril dentro da dança oriental tem o papel fundamental de ler a música em todas as suas variações. Não importa se num momento o instrumento solista é o alaúde, e num outro instante, o que se pede diz respeito a leitura dos ritmos ou frases de percussão. Tudo é essencial e não temos como ignorar um aspecto em detrimento de outro. A evolução desta parte da dança se dá de forma gradativa e cresce na mesma medida em que o estudo se aprofunda, tanto em termos musicais, quanto técnicos. O aprendizado vai abarcar diversas áreas na procura do domínio de nosso corpo. Antes de tudo precisamos sentir o que fazemos, pois o caminho do domínio passa pelo da compreensão. Não há atalho mais curto para se aprender... O único jeito que conhecemos se traduz em aulas, prática e perseverança.

A simetria dos braços e elegância das pernas. Os braços são a moldura de sua dança. Se bem colocados, ninguém nota sua presença, se mal colocados estragam todo o resto. Pense neles como as molduras dos quadros. O mais importante é a pintura, mas nenhuma obra de arte que se preze é colocada em exposição sem uma moldura apropriada. Experimente o estudo das formas com um espelho que lhe ofereça a dimensão de seus desenhos. Neste caso em especial, o espelho é um ajudante maravilhoso. Seus olhos crescem em técnica antes de seu corpo, portanto confie em seus parâmetros visuais. Se olhar para o espelho e não gostar do que vê, pode ter certeza de que algo está muito errado. Deixe-se levar por seu senso estético, com relação a esta parte da dança, ele é tudo o que você precisa.

A simetria dever ser observada, para garantir harmonia e apuro na visão de sua dança como um todo. A movimentação assimétrica e descuidada revela falta de limpeza e tira a concentração do que é mais importante. É incrível como os pequenos erros parecem enormes quando nos apercebemos deles. Se puder evitar este desconforto, para que conviver com ele?

No que diz respeito as pernas, seu bom senso também é chamado ao trabalho. Dançar com as pernas abertas demais prejudica terrivelmente sua linha, assim como, a execução dos passos. Com distância entre os pés seus esforços se multiplicam e não há garantia alguma de alinhamento. O equilíbrio também está ligado a forma como as pernas estão trabalhando durante a dança, e por si só, já é um excelente motivo para tomarmos o devido cuidado em relação a elas.

Hoje em dia as roupas oferecem mil possibilidades sobre como expor as pernas. Algumas bailarinas preferem ser discretas e usam roupas completamente fechadas, outras abusam das aberturas e chegam a causar polêmica com a ousadia dos modelos. Cabe a cada uma de nós, exercer escolhas de acordo com os parâmetros que temos a nossa disposição. Dependendo do evento e do público para o qual vamos nos apresentar, podemos variar nosso figurino. O gosto pessoal também interferirá nesta seleção. De qualquer forma, nenhum tipo de figurino poderá esconder os defeitos decorrentes de má postura ou colocação errada das pernas.

A sensualidade presente na dança, deve andar lado a lado com o senso estético e nosso bom senso. A beleza natural pode e deve ser mostrada.

(Lulu) Em alguns países, como Noruega, a maioria das bailarinas opta por roupas mais fechadas na parte de baixo, fechando completamente a abertura das saias ou quase isso. Em cada país encontraremos um padrão diferenciado. No Egito, temos exemplos de todos os tipos, desde os figurinos mais modernos e em nada parecidos com o que chamamos de "traje típico", até os mais tradicionais, que nos fazem lembrar os filmes dos anos 40 e 50.

Posicionamento e uso dos joelhos
Mantenha suas pernas próximas, e no caso de deslocamentos, dê preferência ao uso de meia ponta alta. Esses cuidados lhe fornecerão maior agilidade e a garantia de uma movimentação delicada e elegante. Ainda um

outro cuidado que vale a pena ser lembrado, diz respeito a forma como posiciona seus joelhos durante a dança. Eles não devem se manter flexionados, pois essa colocação não lhe auxiliará em quase nada. Servirá apenas para colocar mais força sobre a articulação dos joelhos e oferecerá um esforço adicional e desnecessário para esta região.

O desbloqueio do quadril está relacionado muito mais ao controle de movimentos pequenos e delicados e a habilidade de fazer trocas de peso alternadas, do que o uso de força e a imposição de grandes desenhos para clarear o que está sendo feito.

Musicalidade
Como definir musicalidade? Ser musical... por exemplo, poderíamos dizer que "para ser considerada musical, uma dança deveria ser harmoniosa". Com o que estabelecer esta harmonia? O som é nosso caminho, apenas ele pode determinar a ordem, velocidade, humores e nuances de nossa execução.

O ritmo está presente em nossa vida de forma natural e nasce conosco. Nosso coração tem um ritmo próprio que se alterna de acordo com as experiências por que passamos. Nossa respiração também obedece a estímulos externos, mas se mantém em níveis pré determinados para garantir a oxigenação necessária ao bom funcionamento do organismo. Não poderia ser diferente com o ritmo musical.

Dentro da dança essa divisão marca nossos passos e mudanças, definindo finalizações de frase e troca de humores. Nossa qualidade como bailarinas passa pelo crivo da musicalidade. Sendo eficientes na leitura sonora do que é proposto, podemos nos libertar para sentir o que dançamos (Lulu). Um pianista não tem o direito de alterar o andamento de uma peça escrita há anos, só por seu gosto pessoal. Ele deve seguir o que está sendo solicitado dentro da partitura. Assim também é conosco, bailarinas. Se a música solicita deslocamentos, devemos responder com ele; se ela passa por um instante melancólico, que assim o seja: usaremos nossa capacidade dramática para expressar a melancolia que é contada no som.

Ouvi de um músico (Lulu), que respeito muito, uma frase que será minha companhia constante daqui para a frente, e meu objetivo como bailarina e eterna estudante:

Disse ele (Mahmoud Masri): "Uma coisa é o apuro técnico e a beleza em cena. Claro que ambos possuem uma alta dose de atração para o público. Outra coisa, completamente diferente, é a bailarina que ultrapassou o dançar simplesmente, e no lugar disso, toca a música com seu próprio corpo."

Se pudermos usar esta sentença como guia, creio que estaremos suficientemente inspiradas para todo o necessário no desenvolvimento de nossa musicalidade.

O estilo pessoal: sua marca registrada na dança
O seu estilo pessoal depende de tudo o que já viu, ouviu e sentiu até hoje desde que seu contato com a dança teve início. Vemos o desenvolvimento de sua "marca", como a consequência esperada de seu crescimento e maturidade profissional. Devemos observar profundamente todas as grandes bailarinas que se desenvolveram antes de nós. Cada uma delas terá um papel fundamental em nossa formação. Algumas serão nossas musas inspiradoras, outras a perfeita indicação do que não queremos para nossa própria trajetória. Cada uma destas mulheres desempenhou um papel dentro do cenário de dança e transformou sua própria vida, assim como transformamos a nossa.

Muitas de minhas professoras (Lulu), nunca me viram e nem saberão a importância que tiveram e tem em minha vida. Não é por falta da presença física que elas não existem em mim. Dentro de minha pessoa, enquanto bailarina, residem todas aquelas que me ensinaram, pessoalmente ou não.

Ao copiar grandes bailarinas, estudando seus diferentes estilos e formas pessoais de variações, desenvolvemos em nós mesmas novas possibilidades. Num primeiro momento tentamos realmente duplicar aquilo que vemos no vídeo ou em aula. Estudamos até que a qualidade de nosso movimento se aproxime daquela que foi nosso motivo de estudo. Este por si só, já é um árduo caminho. Depois de algum tempo você perceberá que aquele passo foi incorporado a seu repertório de movimentos e adquiriu características levemente diferenciadas. Neste momento, seu estilo pessoal está nascendo.

Todas nós somos os frutos daquelas que nasceram, viveram e dançaram quando ainda éramos meninas, portanto não é vergonha nenhuma dizer que copiamos umas as outras. Na procura de nós mesmas, trilhamos os mesmos caminhos que outras já trilharam até que possamos deixar nossa própria marca.

*Jorge Sabongi/Lulu - Novembro 2002 (proprietários da Casa de Chá 

Khan el Khalili)

 
   

     

 

   

  

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