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O trabalho realizado em Saúde Mental
Muito se tem discutido a respeito dos benefícios da dança do ventre para as mulheres que a praticam, mulheres que, independente de idade ou "Dom" para dança, a utilizam, sem preconceitos e com prazer, como um redescobrimento de si mesmas, do feminino inato, que talvez se encontra limitado, escondido. E com essa idéia que a dança do ventre é para todas as mulheres, sem exceção, bastando o desejo de aprendê-la, que sua prática junto a saúde mental, enriqueceu em vários pontos não só as novas praticantes, como trouxe uma nova possibilidade de atuação à tão admirada dança do ventre.
A oportunidade de desenvolver tal experiência ocorreu junto a saúde mental italiana, na cidade de Trieste, de onde idéias e práticas de desinstitucionalização da psiquiatria, tiveram seu início na década de 70, quando um grupo de profissionais, liderados por Franco Basaglia, decidiram literalmente, derrubar o muro de hospitais psiquiátricos, criando um luta anti-manicomial, cuja força ainda se mantém não só na Itália como em vários países, incluindo o Brasil.
No decorrer de trinta anos, diante da nova situação, foi necessário desenvolver novas formas de se lidar com a loucura, isto é, com a diferença. Pessoas antes internadas em hospitais fechados, passaram a levar suas vidas inseridas ao social, mantendo seus vínculos com centros de saúde mental espalhados pela cidade, os quais auxiliam na reintegração das mesmas. Tendo este como um dos objetivos, além de colocar a frente a questão da diferença de gênero, foi criado um centro de Saúde Mental só para mulheres, onde eram discutidos e praticados vários temas sempre voltados ao interesse feminino.
Então, nada mais feminino que a dança do ventre para ser praticada dentro de tal ambiente, e foi assim que se abriu a oportunidade e espaço para que ela entrasse em cena mais uma vez. E como o centro de saúde mental da mulher era um lugar de receptividade da diferença, não só às freqüentadoras, mas, o contato com a dança se estendeu, também às mulheres antes fora daquele contexto.
Desta forma, os encontros eram realizados uma vez por semana, com aulas de duas horas de duração. Como de costume, primeiro, o aquecimento, alongamento, depois a técnica, as praticantes colaborando entre si para o aprendizado; as com mais habilidades, pacientes mostravam às suas companheiras a melhor maneira de se realizar os movimentos. Seguidos de exercícios de integração de grupo, prática da dança em conjunto, com músicas alegres, palmas. A alegria contagiava aquela diferente cultura européia e se estendia por outras mulheres que passam por ali por motivos diversos, as quais, inúmeras vezes, paravam para nos observar. Como se com a dança, não houvesse mais o limite entre o normal e a loucura. A dança do ventre, a música, a alegria facilitavam um estado modificado de consciência, nos levando a uma dissipação de nos mesmas, todas se tornavam apenas uma na dança do feminino.
Os benefícios passaram a ser visíveis a cada prática, trazendo sempre novas adeptas. Prática que desenvolvia sempre mais o feminino interior de cada uma, o equilíbrio interno e externo, a limite entre o normal e a loucura já não mais existia, era uma comunhão de energias que enriquecia cada mulher em seu crescimento de vida, onde experiências compartilhadas representavam ancoras, bases, criadas para a expansão, para o vôo de liberdade de cada uma, se redescobrindo docemente enquanto mulheres.
Maya Gaorry
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